A RTP Açores emitiu ontem o programa Estado da Região que se debruçou sobre os transportes aéreos para os Açores.
Como seria de esperar o debate centrou-se nos preços que os Açorianos pagam por uma viagem ao continente Português. Mais uma vez fica a ideia que muita gente só fala no preço mais baixo que é praticado por low costs para outros destinos, sem perceber o que está por detrás dessas tarifas e que são sempre referentes a um número de lugares limitado. Sobre isso gostei especialmente do último mail que foi lido, onde se fazia uma comparação interessante: junte-se ao preço do bilhete que se vê nas publicidades para a Madeira (aplicável a outros destinos low cost) os 22 euros que se cobra por cada bagagem de porão mais os 12 euros de embarque prioritário, para ter uma hipótese de escolher o seu lugar, e já estamos a falar de valores equiparáveis às tarifas promocionais para os Açores. Pode-se dizer que estes últimos 12 euros são supérfluos, mas há outros custos extra que não o são. Muito poucos açorianos voam sem bagagem de porão, e não são poucos os que levam mais do que uma, que também terá de ser paga... Ou até imaginem que não reservam bagagem de porão mas, à última da hora, é preciso leva-la, são logo mais 44 euros...
Estes são só alguns exemplos do que esperar dos serviços low cost. Não estou a dizer que são maus, são o que são e os preços estão bem explícitos nos seus sites, mas pelo que tenho visto, o que as pessoas querem é preços de saldo mas com todas as regalias a que estão habituados. Isso simplesmente não é possível.
Resumindo, é caro voar para os Açores, mas as pessoas também não têm a noção dos direitos que lhes são concedidos neste modelo. E penso que ficou claro que ninguém defende a liberalização dos voos para os Açores, quer por se sentir a necessidade de garantir pelo menos parte dessas regalias que tomamos por garantidas, quer por causa da pluralidade dos Açores que impedem que num ambiente liberalizado todos os Açorianos tivessem direito às mesmas tarifas.
Ficou certo também que é necessário mudar o actual modelo para permitir tarifas mais baratas. Neste campo achei interessante uma proposta que foi feita: Separar o transporte de carga do de passageiros.
A ideia em teoria é boa, mas é um bom exemplo de como é difícil conciliar as coisas. Passo a expor o meu ponto de vista, se existissem obrigações de serviço público de passageiros e de carga separadas, é possível que se diminuíssem os custos da operação de passageiros, por via da diminuição da capacidade da carga das aeronaves, possibilitando uma melhor gestão de frota. Essas poupanças poderiam ser então passadas para o preço do bilhete. Mas depois para a carga teria que vir outro avião. E esse voo continuaria a precisar de subsidio para existir. Lá teríamos todos que pagar esses voos, indirectamente, através dos impostos. Será que no fim de contas, fazer 2 voos diferenciados em vez de 1 saía mais barato? Além disso, a carga é um complemento às recitas das SATA e da TAP nas rotas para os Açores, não vejo que estejam dispostas a abdicar do seu transporte. Se estas duas companhias continuassem a escoar carga, será que continuaria a haver uma quantidade mínima para justificar os voos cargueiros?
Penso que por aqui se pode ficar com uma ideia da grande complexidade deste assunto. Todos queremos pagar menos, mas devemos ter a noção das dificuldades que existem nestes voos e perceber que o que temos não é assim tão mau como se vai dizendo por aí. Queremos melhor sim senhor, mas é preciso valorizar o que já temos.