07 junho 2010

Meter um avião no ar custa dinheiro.

Os preços das viagens de avião para os Açores e inter-ilhas sempre geraram muitas críticas. Enquanto muitas dessas críticas têm a sua razão de ser, eu próprio nunca achei as passagens baratas, e algumas até são bem fundamentadas, a verdade é que a maior parte das vezes que ouço falar no assunto, deparo-me com um total distanciamento do que de facto está por de trás dos preços praticados pelas companhias aéreas, para assistir a uma comparação absurda com preços promocionais praticados por outras companhias, em rotas que se dizem equiparáveis em distância com as nossas, mas ignorando uma dinâmica completamente diferente da nossa realidade e comparando entre tipos de tarifas diferentes. É uma comparação entre alhos e bugalhos em que só se mostra o que dá jeito para moldar a ideia que as pessoas têm sobre o assunto. E não é difícil, ninguém quer pagar mais do que o estritamente necessário para usufruir de qualquer serviço.

Eu próprio cheguei a pensar que a nossa situação era realmente muito má e totalmente diferente do que se passa no resto da Europa, tal é a desinformação que se publica em redor deste tema.
De qualquer forma é sempre difícil dizer a alguém que sempre teve direito a estadias em caso de cancelamento do seu voo por meteorologia adversa, a levar bagagem de porão e alterar os seus voos sem taxas adicionais, entre outras, que isso são serviços extra que se pagam bem caro nas tais companhias com as tais tarifas promocionais de arregalar o olho.

Mas, recentemente, tive a sorte de me deslocar em trabalho a Munique, via Lisboa e Frankfurt, e agora posso dizer que o voo Frankfurt - Munique - Frankfurt, que cobre uma distância de 162 milhas náuticas, custa 188 euros, e o Lisboa - Frankfurt - Lisboa 394 euros, para uma distância de 1012 milhas náuticas. Posso então comparar estes preços com os 170 euros para fazer Ponta Delgada – Flores – Ponta delgada, que são 274 milhas, ou com os 341 euros de um Lisboa – Horta – Lisboa que são 919 milhas náuticas. Isto são preços de bilhetes sem restrições, de não residente. Os Açorianos ainda têm tarifas sem restrição mais baixas que as que utilizei na comparação...

Esta comparação é tão ou mais válida que as tais que tanto nos moldam a mente, com as tarifas promocionais das low cost que nos fazem gritar por melhores preços, embora se deva manter em conta a existência de outros tipos de tarifas e o facto de estarmos a utilizar um caso pontual para a comparação, coisas a que ninguém liga quando é para reclamar…
Não quero com isto dizer que não se deva reclamar melhorias, aliás já foram anunciados bilhetes a 100 euros para o Continente, e, sem necessidade de se entrar pela da confusão com que se quis envolver esse anúncio, está-se mesmo a ver que esses valores aplicar-se-ão às tarifas promocionais disponíveis para lugares limitados, até porque já tem sido discutido que uma das coisas a mudar nas actuais obrigações de serviço público, é a obrigação de uma tarifa mínima, que se pretende abolir, dando liberdade às companhias para estipularem os seus preços mais baixos, possibilitando melhores promoções e flexibilidade dos seus planos de tarifas. Assim, cada vez nos aproximamos mais dos tais preços promocionais que fazem salivar muita gente, mantendo os bons preços que já nos são oferecidos nas tarifas que incluem outras regalias e direitos, que muitos tomam por garantidos mas que convém acautelar ao abrigo das obrigações de serviço público, que nos bastidores nos continuam a proteger sem que ninguém lhes dê o devido valor. Até ao dia em que desapareçam e comecem a gritar aqui del rei!

11 comentários:

IS disse...

Assino por baixo. Excelente comparação. Abraço

Marcus disse...

Hello Rui,
Whenever I am faced with travel costs, difficulties or delays (by any mode of transport) I always remember that not so long ago that journey would have been made by horse coach, sailing ship or on foot.
We are indeed VERY spoilt today...

Defensor nº. 1 disse...

Sim, Marcus, os passageiros estão muito reivindicativos e sempre reclamantes do custo do transporte aéreo. (Qualquer dia vão querer que lhes paguem para viajar porque é um direito de todos! - e a UE há-de consagrá-lo na sua "Constituição!) Mas a culpa dizem que é do mercado! Se este reivindicar preços cada vez mais baixos o que poderá conduzir ao aligeiramento das condições de segurança nos aviões para todos poderem pagar uns euros a menos,como às vezes acontece com as "Low-cost", então estará mesmo tudo mal. Tudo tem o seu preço, e não se pode descer abaixo dos limites. As pessoas esbanjam dinheiro em "coisas" bem dispensáveis, mas depois querem ter de borla o que realmente deve ter um custo justo para obedecer às regras e oferecer qualidade. Pois, e basta comparar a dificuldade e o custo das viagens em carruagem de cavalos antigamente, depois dos comboios...
Estamos mesmo cada vez mais "mimados"!...

Milosz disse...

Great low pass by the way! :D

Milosz disse...

I agree with the text and Marcus' comment. We can't have it all. Either we pay more for more rights and bonuses or we can pay less but with more restrictions. That's the way the world turns and there's no evidence it's gonna change in the future.

Regards,
Milosz

amg disse...

hummm...
contaste com as malas (20kg) que nuns bilhetes estão incluídas no prço e noutros não (e quase que se paga ao kg, para além de serem intolerantes com os excessos)?

Javalí Rubio disse...

Que blog fantástico para quem ama a aviação!!! Parabéns!!!
Visitem também este blog português relacionado com a aviação e a Fotografia Aérea de Portugal:
Terceira Dimensão - Fotografia Aérea de Portugal
Obrigado

Silva disse...

Concordo plenamente com o artigo. De facto o serviço público de transporte é vital, sem esse serviço os preços seriam muito variáveis. Para além disso, existiriam rotas em que a frequência seria reduzida, dando mais importância às rotas onde a taxa de ocupação fosse superior.

Anónimo disse...

Blá, blá, blá... Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão!
A Filarmónica União Prainhense (Prainha do Norte, no concelho de São Roque do Pico) deslocou-se a Terras do Continente e hoje, no regresso, viram-se "obrigados" a despachar as bagagens dois a dois e não em grupo. Quem tiver a mínima noção do material que uma banda filarmónica necessita transportar, ficará com uma ideia do que aconteceu. Foi um tal pagar excesso de bagagem. Adivinham qual a companhia aérea que os levou de regresso aos Açores? Não, não foi a Easyjet nem nada que se pareça. Foi a "nossa" SATA! A menina dos nossos olhos. Não faço a mínima ideia se aquela instituição vai, ou não, fazer chegar o seu protesto a quem de direito (A meu ver, o próprio Governo Regional), mas que esta situação não pode ficar no silêncio de um qualquer balcão de atendimento de um barracão a que, pomposamente, foi dado o nome de "Terminal 2", não pode. A própria Câmara Municipal de São Roque terá a obrigação de se juntar a esse eventual protesto. É que se, já hoje, nos comem as papas na careca, a ficar-mos acocorados, amanhã não sei onde as poderão comer...

Silva disse...

Sr. Anónimo da Prainha, pegue no rato do seu computador e vá até ao site da easyjet, por exemplo e faça lá uma simulação, por exemplo de um voo entre Funchal e Lisboa, encontramos preços maravilhosos, não é?Imagine agora que faz parte de uma bela Filarmónica, que de facto é, para além do preço do bilhete que poderá ser de 50€ na rota referida, tem de acrescentar 22€ por cada bagagem até 20Kg. Se tiver peso extra paga mais 9€ por quilo, logo desde dos 20Kg. Numa filarmónica, onde existem vários instrumentos pesados, os 50€ da viagem, rapidamente se tornam em +-200€. O peso extra da SATA ronda os 3€, pois já paguei várias vezes. Lembre-se também que a easyjet não garante assistência em terra em caso de cancelamento, a Sata lá resolve as coisas (por vezes não tão bem).
Acho que o melhor para o Pico seria talvez a liberalização do espaço aéreo, aí os picarotos iriam voltar ao século passado, em que viagens, só mesmo de barco.
"We are indeed VERY spoilt today..."

Anónimo disse...

O Sr. Silva plagiou o comentador Marcus que, para dizer que estamos muito mimados (Ou mal habituados),utilizou a lingua de Shakespeare. Cultura a rodos!...
Como é natural, falo, apenas e só, por mim. E não me sinto nada mimado, por esta cambada. Estou farto de ser tratado abaixo de cu de cão. Estou farto de ser obrigado a atravessar o canal, a fim de apanhar um avião. Estou farto de falsas promessas e de esperar em vão. Estamos mal habituados e já foi pior?! Certamente que sim mas com o mal dos outros posso eu bem! Cumprimentos.